Grande parte da esquerda esmiúça o envolvimento de uma feminista com a CIA na década de 1950, enquanto silencia sobre o dinheiro por trás da chamada agenda progressista hoje. O interesse é a crítica legítima ou crucificar a mulher vilã?

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Nos anos 1950 e 1960, Gloria Steinem dirigiu o Independent Research Service, organização financiada pela CIA para levar estudantes norte-americanos aos festivais mundiais da juventude e conter a influência soviética.

Desde a morte de Steinem, no último dia 2, comentadoras e comentadores da esquerda voltaram ao episódio. Em artigo para a Jacobin, Jenny Brown se dedicou a mostrar o papel de Steinem como “madrinha do feminismo neoliberal”.

A CIA e o Estado norte-americano de fato influenciaram o feminismo anglófono, sobretudo o norte-americano. Influenciaram também, e continuam influenciando, boa parte da produção cultural e intelectual exportada dos EUA para o mundo, e, dos anos 1950 em diante, os próprios movimentos sociais, muitas vezes em confluência com a filantropia bilionária, progressista ou conservadora, conforme o governo da vez.

Escrutinar publicamente a conduta de Steinem, portanto, só faz sentido se o objetivo for aprender com os erros do passado e entender como esse processo opera até hoje. Fora disso, a toada moral em cima dela não passa da boa e velha “bad woman propaganda”.

Não é mais nenhum segredo que as elites políticas e econômicas influenciam fortemente os movimentos sociais via apoio institucional e financeiro, e são capazes de forjar agendas a partir dos próprios interesses, condicionando o movimento a sustentá-las ao financiar apenas os projetos que cabem dentro do escopo permitido. É essa segunda operação, a de forjar, que Jennifer Bilek documenta em A Indústria dos sexos sintéticos em relação ao transgenerismo e ao movimento LGBT. 

Foi justamente esse o debate que a autora tentou levar ao Left Forum, em 2016. “Ativistas trans” invadiram o local alegando que sua fala era violenta, e a organização, como ela conta na introdução da obra, cedeu e pediu desculpas a eles. Não lhe passou despercebido que a esquerda política, “historicamente um bastião da liberdade de expressão”, estava censurando a dela. O escrutínio de uma mulher morta convive, sem constrangimento, com a censura à mulher viva que dirige o mesmo escrutínio para o presente. 

“Identidade de gênero” como direito legal


Martine (Martin) Rothblatt é fundador da United Therapeutics e já foi um dos CEOs mais bem pagos da indústria biofarmacêutica. Foi também um dos integrantes do comitê de redação da International Bill of Gender Rights (IBGR), documento do qual descende boa parte da legislação transgênero posterior, incluindo os Princípios de Yogyakarta + 10.

Em 1995, ele publicou The Apartheid of Sex, argumentando que classificar seres humanos como machos e fêmeas é uma forma de segregação a ser desmontada. A edição de 2011 dispensa qualquer ambiguidade: o mesmo livro foi reeditado sob novo título, From Transgender to Transhuman. A premissa está enunciada na própria mudança de nome: o corpo sexuado é a primeira restrição a ser dissolvida, e as demais vêm atrás.

Rothblatt é um homem rico e influente com uma agenda.

A agenda não está só nos livros. A United Therapeutics, empresa que Rothblatt fundou e dirige, comprou em 2011 a Revivicor — a companhia de clonagem que criou a ovelha Dolly — para produzir, em porcos geneticamente editados, órgãos destinados a corpos humanos.

Como membro da International Conference on Transgender Law and Employment Policy (ICTLEP) desde 1992, Rothblatt redigiu a primeira minuta dos Transsexual and Transgender Health Law Reports depois de conhecer, no Texas, outro advogado transgênero: Phyllis Frye, chamado de “a avó do movimento transgênero”. Esse pequeno encontro de homens com queda por roupas íntimas femininas serviu de trampolim para um projeto internacional de disseminação global do transexualismo e de desconstrução do dimorfismo sexual humano.

A ICTLEP se tornou um projeto internacional quando Frye foi contatado por Stephen Whittle, pessoa autoidentificada como transexual, hoje professora de Direito da Igualdade na Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido. Whittle foi eleita presidente da World Professional Association for Transgender Health (WPATH), que desde então abriu filiais em vários continentes. Whittle também integrou a equipe de especialistas que redigiu os Princípios de Yogyakarta, na Universidade Gadjah Mada, em Yogyakarta, Indonésia, em novembro de 2006.

Os Health Law Reports, iniciados por Frye e Rothblatt e logo assumidos também por Whittle, viraram minuta de trabalho para outro documento e comitê global: o Interdepartmental Working Group on Transsexual People, promovido por mais um advogado transexual, Christine Burns, e criado pelo Ministro do Interior do Reino Unido em 1999.

A própria IBGR é documento distinto dos Health Law Reports, embora deles derivado. Uma primeira minuta circulou em 1993, a partir de rascunho de JoAnn Roberts e Sharon Stuart; Rothblatt, Frye e outros a revisaram extensivamente nos anos seguintes. A versão final foi adotada na quarta conferência da ICTLEP, em Houston, em 17 de junho de 1995, ocasião em que Rothblatt e Whittle fizeram a leitura pública do documento.

A IBGR enuncia dez direitos fundamentais para todos os indivíduos, independentemente de identidade de gênero. Nenhum organismo legislativo nacional ou internacional a adotou como lei, mas seus princípios influenciaram legislações antidiscriminação em diversos estados norte-americanos e serviram de referência para os Princípios de Yogyakarta. Na decisão que equiparou transfobia a racismo (ADO 26, 2019), o STF incorporou os Princípios de Yogyakarta à sua fundamentação — eles constam da ementa do acórdão.

Os Princípios de Yogyakarta, aliás, não são um documento da ONU e nunca foram discutidos ou ratificados por nenhum órgão da ONU. Foram redigidos em 2006 por vinte e nove signatários reunidos pela organização canadense ARC International, financiada pela Arcus Foundation. Dali, a agenda foi exportada para o mundo, e em especial para o Sul global.

“Identidade de gênero” e a captura da agenda feminista

A Astraea Foundation nasceu em 1977 como organização feminista voltada a mulheres lésbicas, negras e racializadas nos EUA. Distribuía pequenas doações, de cem a mil dólares, para custódia de filhos de mães lésbicas, direitos de mulheres encarceradas, espaços artísticos, até um coral de lésbicas. Em 2007, tudo mudou. Assim que recebeu a primeira doação da Arcus Foundation, a fundação bilionária de Jon Stryker, herdeiro da Stryker Medical, a Astraea começou a deslocar seu foco de mulheres para “minorias sexuais e de gênero”. Ao longo dos anos, embolsou cerca de 12 milhões de dólares da Arcus, o maior montante concedido a qualquer beneficiário da fundação. Em 2020, o que restava das lésbicas na página inicial da Astraea era o “L” da sigla LGBTQI+.

O dinheiro tinha destino. Em 2011, a Astraea recebeu 200 mil dólares para lançar a Global Action for Trans Equality (GATE). Em 2015, num encontro em Istambul, nasceu o International Trans Fund, com 2,5 milhões da Arcus e apoio da Open Society Foundations e do governo Obama, voltado a impulsionar a ideologia da identidade de gênero no Sul global. E em 2013 a Astraea recebeu verba para o Global Philanthropy Project (GPP), que reúne Open Society, Ford, Oak, Luminate, Mama Cash e outras. O trabalho do GPP incluiu, ao lado da própria Astraea, uma operação coordenada para desacreditar quem critica a ideologia da identidade de gênero, enquadrando qualquer dissidência como fanatismo religioso e conservadorismo. Foi o relatório do GPP “Meet the Moment” (2020) que serviu de base para o “Where is the Money for Feminist Organizing?” (2021), da AWID, replicado pela ONU Mulheres e, no Brasil, pelo Portal Catarinas.

Mas a narrativa “anti-direitos” não parou por aí. Em setembro de 2025, a Gênero e Número, organização sem fins lucrativos que se descreve como a “primeira organização de mídia no Brasil orientada por dados para qualificar o debate sobre equidade de gênero”, lançou, em parceria com a Novelo Data, o Radar Antigênero. A plataforma, segundo o próprio site, “utiliza inteligência artificial para analisar e classificar vídeos com discurso antigênero no YouTube”. Eles definem “discurso antigênero” como o que é “usado para atacar ou desacreditar pessoas, direitos e políticas relacionados a gênero e sexualidade”, em geral “associado à desinformação, teorias da conspiração e moralismo”. A categoria, porém, não delimita a fronteira entre criticar a ideologia da identidade de gênero e “atacar direitos”. Na prática, qualquer defesa de proteção de mulheres e meninas por meio de políticas baseadas no sexo basta para ser enquadrada como produtora de “discurso antigênero” e, por extensão, como pessoa ou movimento antidireitos. 

Entre os financiadores da Gênero e Número está a Oak Foundation, integrante do GPP. Entre os ex-financiadores estão outros dois integrantes: Ford e OSF. Os valores, as datas e as demais informações sobre as doações ficam disponíveis nos sites das próprias fundações. 

É essa a história que Jennifer Bilek em A Indústria dos Sexos Sintéticos. Não uma conspiração, mas algo mais banal e mais difícil de desmontar: um grupo de advogados ricos, um punhado de fundações bilionárias e uma agenda que desceu do Norte para o Sul vestida de direitos humanos. Para a autora, a “identidade de gênero” não brotou de um movimento de base nem de uma demanda das ruas, mas foi construída de cima, por quem tinha dinheiro e interesse em transformar o corpo sexuado em matéria-prima da indústria de gênero. 

Se o interesse é não repetir erros, examinar quem molda as políticas progressistas no presente é muito mais urgente do que ajustar contas com uma figura do passado.

Capa: An Evening with Gloria Steinem, May 14, 2016 - US Embassy from New Zealand

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