Nesta apresentação à edição brasileira de A indústria dos sexos sintéticos, nossa editora explica por que a Ginna publica Jennifer Bilek.
Em A indústria dos sexos sintéticos, Jennifer Bilek — jornalista que há mais de uma década segue o dinheiro por trás da indústria de gênero — reúne anos de despachos investigativos para nos oferecer uma radiografia completa desse empreendimento lucrativo. Ao olhar mais de perto e analisar os dados e as informações disponíveis dentro de um contexto cultural, político e econômico, a autora nos revela quem são os homens ricos, brancos e poderosos que forjaram esse verdadeiro ataque à realidade — e quais são suas verdadeiras intenções por trás da narrativa. Ao fazê-lo, Bilek não deixa dúvidas de que não são apenas os direitos das mulheres e das crianças que estão sob ameaça, mas também a nossa própria condição humana corporificada e sexuada. Por esse motivo, esta obra se faz imprescindível não só para o debate feminista, mas para qualquer debate sobre ecologia e justiça socioambiental. Antes de qualquer coisa, estamos falando de uma ideologia antropocêntrica, de completa negação de que somos parte de uma natureza mais ampla, nem independentes nem acima dela — e é apenas a partir dessa compreensão que seremos capazes de enfrentar a destruição ecológica e as alterações climáticas em curso, bem como lidar com suas consequências para mulheres e meninas em seus contextos específicos.
À sua maneira, Bilek faz convergir duas críticas históricas do ecofeminismo com a contestação mais ampla de determinados espectros da esquerda à filantropia liberal e à ilusão de que a revolução pode ser financiada1. A primeira crítica ecofeminista diz respeito à suposição de que os seres humanos estão acima da natureza e podem transcender a moldura biológica e ecológica que habitam, ou seja, extrapolar os limites do corpo e da natureza sem consequências2. A segunda, ao dualismo cartesiano corpo/mente, que postula o corpo como matéria amorfa que não só pode como deve estar a serviço da mente — e ser moldado por ela com o auxílio da ciência e da tecnologia3. Ecoando ainda a crítica de autoras feministas como Janice Raymond, Gena Corea, Renate Klein e Maria Mies ao aparato tecnomédico das tecnologias reprodutivas4, a autora descortina o aprofundamento da mercantilização das mulheres e da própria feminidade5. Por sua vez, a biofobia6 — somada ao distanciamento da nossa realidade material, intensificado pela ascensão do digital e pela incansável busca masculina pelo poder — revela-se no cerne de ideologias transcendentais como o transumanismo.
Trazer este livro para o Brasil é, mais do que revelar as minúcias desse esquema de pilhagem sobre os nossos corpos-territórios, chamar atenção para um momento muito particular, e crucial, da história dos humanos-na-natureza. Como jornalista e pesquisadora ecofeminista há mais de dez anos, não me é difícil enxergar a centralidade da “morte da mãe” como marca principal desta atual virada de era: um longo processo de declínio do patriarcado capitalista como o conhecemos, impulsionado pela necessidade de superar as barreiras ao processo de acumulação e criar “natureza barata” para geração de lucro. Esse crepúsculo se manifesta no aumento da violência disseminada contra mulheres e meninas — feminicídios, estupros, disseminação da misoginia nas redes sociais e fora dela, casamentos forçados, acirramento do controle social, corporativo e estatal da nossa capacidade reprodutiva, normalização da prostituição, onipresença da pornografia, da objetificação feminina na cultura e da desumanização das mulheres na linguagem — e nas profundas alterações climáticas de origem antropogênica. Historicamente, essas viradas epocais também são marcadas por mudanças paradigmáticas na forma de compreender a vida, o cosmos e os humanos7.
Ainda que as questões suscitadas por Bilek pareçam novidade para muitos, elas não são novas. A questão central do livro, o financiamento das elites aos movimentos sociais, tem trajetória longa: é na efervescência de 1968 que toma a forma que conhecemos hoje, quando as fundações liberais passam a investir não para avançar as pautas dos movimentos, mas para delimitar o que esses movimentos podem ser e perseguir — domesticando o dissenso antes que ele se torne ameaça real à acumulação. Joan Roelofs, em artigo de 1987 para a Insurgent Sociologist, argumenta que um aspecto decisivo do declínio da chamada Nova Esquerda nos anos 1970 foi sua transformação, via doações e assistência técnica dessas fundações, em organizações fragmentadas e locais, sujeitas a múltiplas instâncias de controle da elite8. Embora Roelofs tenha analisado o cenário dos Estados Unidos, a influência dessas fundações tornar-se-ia exponencialmente global, chegando a moldar o próprio ecossistema das doações e a definir, de fora para dentro, quais pautas merecem receber o carimbo de “progressistas” — como se verá ao longo deste livro.
Durante a década de 1980, muitas feministas passaram a debater sobre o financiamento à pesquisa e a crescente institucionalização do feminismo. Algumas, como Maria Mies, Vandana Shiva e Julieta Paredes, recusaram-se a ceder a esses processos interligados9, mas o feminismo não resistiu ao matricídio pós-moderno: na década de 1990, o potencial revolucionário do movimento foi parcialmente enterrado pela ascensão da versão neoliberal e financiada pelas elites dos “estudos de gênero”10. Como ressaltou a economista e ecofeminista Veronika Bennholdt-Thomsen:
Não é coincidência que o conceito de “gênero” tenha dominado o discurso feminista na era da globalização neoliberal. “Gênero” é uma reflexão filosófica ultraliberal, semelhante à “igualdade de condições” da teoria econômica neoliberal. Segundo o conceito de “gênero”, não existem sexos; tudo é naturalmente homogêneo no sentido de estar em um mesmo nível, permitindo um desenvolvimento desenfreado a partir deste nível, livre de quaisquer limitações11.
O que Bilek adiciona a esse diagnóstico é a dimensão concreta e corporativa do fenômeno. A ideologia da identidade de gênero não flutua sozinha: ela está organicamente articulada às políticas ESG (Environmental, Social and Corporate Governance) e DEI (Diversity, Equity and Inclusion), gestadas nos anos 1980 e consolidadas como agenda global a partir de 2020, na esteira da Agenda 2030 da ONU. A classe dos “Grandes Homens” — com seus penduricalhos estrategicamente alocados nos governos, na ONU, nas ONGs e na mídia —, longe de impulsionar uma pauta de direitos, está criando um mercado. Para Bilek, a indústria dos sexos sintéticos é a ponta de lança transumana dessa agenda corporativa: não um movimento a ser tolerado, mas um negócio a ser expandido.
As consequências das inúmeras tentativas de transcendência da moldura ecológica e biológica em que habitamos, cedo ou tarde, revelam-se. Se hoje fingir que não existem limites materiais aos desejos de acumulação dos homens — e digo dos homens porque são eles que figuram de forma indiscutível entre os maiores acumuladores de riqueza do mundo —, já resulta na extinção em massa de espécies, no aquecimento global, nas pilhas de lixo tóxico e na sobrecarga aos limites planetários, as consequências de fingir que não existe um corpo humano orgânico com limites próprios igualmente chegarão. O Brasil não está fora dessa disputa; como eterna colônia, está no centro dela, atravessado pelas mesmas fundações, pelas mesmas agendas e pelas mesmas estratégias de cooptação que Bilek cartografa.
Mas é imprescindível lembrar também que viradas epocais são marcadas por uma intensa e renovada luta de classes, abrindo, portanto, novas possibilidades para um futuro de conexão, enraizamento e bem viver. O que obras como esta pretendem é nos ajudar a reconhecer o terreno em que pisamos para que não sejamos manipulados — e não percamos a luta.
Imagem capa: Cena icônica de Metrópolis (1927), de Fritz Lang: o cientista Rotwang e Freder diante da androide Maria, em um dos frames mais reconhecíveis da história do cinema. © Friedrich-Wilhelm-Murnau-Stiftung