A libertação gay nasceu com uma compreensão que seria progressivamente abandonada: a de que a opressão dos homossexuais tinha raiz no sexismo e que a libertação gay só seria possível junto à libertação das mulheres. Em A origem da política queer, Sheila Jeffreys reconstrói o processo pelo qual esse projeto se desfez — a masculinidade gay voltou à moda, o capitalismo gay substituiu a política e as lésbicas deixaram o movimento em massa. Leia um trecho. 

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Por que a libertação gay falhou?

John D’Emilio, no novo prefácio da reedição da antologia americana de escritos da GLF, argumenta que a libertação gay foi suplantada por um ativismo por direitos gays mais palatável no final dos anos 1970. Esse novo movimento por direitos gays não se enxergava mais como um entre outros movimentos de libertação trabalhando por mudanças sociais fundamentais. Sua agenda tornou-se mais estreita, aderindo à política liberal por direitos iguais.

Conforme os anos 1970 avançavam, os movimentos gay e lésbico começaram a viajar por muitos caminhos diferentes, um deles pode ser classificado como um movimento pelos direitos gays. Composto principalmente por homens gays brancos de classe média, mas também por algumas lésbicas e pessoas racializadas, essa política orientada para reformas focava apenas nas pautas gays, abandonando amplamente a extensa análise da opressão que inflamou a libertação gay. Esses ativistas, muitos dos quais eram bastante militantes nas táticas que defendiam, buscavam entrar no sistema em termos de igualdade. (D’Emilio, 1992, p. xxv).

Em particular, D’Emilio argumenta que esses novos ativistas por direitos iguais perderam a compreensão do movimento de libertação gay de que a opressão dos gays era resultado do sexismo e que, por isso, homens gays precisavam lutar contra o sexismo ao lado das mulheres. “Diferente dos homens gays em Out of the Closets, que viam o sexismo como a raiz da opressão dos homens gays, agora o sexismo é considerado algo relativo a ‘elas’” (p. xxvi). Os ativistas pelos direitos gays, explica D’Emilio, perderam também a compreensão do movimento de libertação gay de que a homossexualidade, assim como a heterossexualidade, era socialmente construída. As identidades gay e lésbica, ele afirma, voltaram a ser vistas, assim como no período pré-Stonewall, como “identidades fixas, determinadas no início da vida (se não no nascimento), mas naturais, boas, saudáveis, ao invés de não-naturais, ruins, doentias” (p. xxvi).

Mas D’Emilio critica a amplitude da crítica social trazida pelos liberacionistas gays. Ele vê o radicalismo de sua agenda como sendo um dos motivos do seu fracasso. Ele levou em conta os argumentos feitos por libertários sexuais nos anos 1980 e 1990, que afirmavam que os liberacionistas gays, assim como as feministas radicais – que sofriam ataques similares –, eram, nas palavras dele, “moralistas e condescendentes”. Em seus ataques “aos papéis sexuais, ao sexo casual, à objetificação e à cultura dos bares, eles acabaram construindo uma política sexual prescritiva […]. Estiveram a ponto de se tornar um esquadrão antivícios” (p. xxvii). É interessante notar o quão similares essas acusações são aos ataques às feministas radicais nos chamados debates feministas sobre sexualidade dos anos 1980 (Vance, 1984). Nesses “debates”, a crítica feminista radical à pornografia e à prostituição também foi atacada como sendo de direita e moralista. Enquanto nas comunidades e políticas gays masculinas não houve um debate acirrado, levando ao simples esmorecimento dos entendimentos da libertação gay, entre lésbicas e feministas a batalha para vencer a crítica feminista radical era furiosa (ver a discussão sobre esses debates em Jeffreys, 1990a).

D’Emilio diz que o problema dos gays liberacionistas era sua “ingenuidade em relação às dinâmicas do desejo sexual; a mudança era assumida como sendo mais fácil do que realmente era” (D’Emilio, 1992, p. xxviii). Ele permanece crítico ao liberalismo sexual que substituiu a crítica liberacionista gay: “Ainda assim, ao reagir a isso, parece que frequentemente abrimos mão de pensarmos criticamente sobre a sexualidade. Nossa política sexual é com frequência reduzida a uma campanha contra as proibições” (p. xxviii). Mas ele parece muito cansado e muito desiludido para manter uma crítica, que foi tão vital nos anos anteriores, à construção da sexualidade. “Dentro de uma cultura na qual a sexualidade passou a definir a verdade do Self e na qual o desejo sexual parece coincidir com quem nós somos, talvez seja muito divisível, muito volátil submeter algo tão pessoal ao escrutínio político” (p. xxviii). Essa renúncia vem menos facilmente para as ativistas feministas, já que são as mulheres aquelas que sofrem diretamente com o exercício de uma sexualidade masculina construída em torno da objetificação e da agressão, que se dá na forma do estupro, do assassinato, do assédio sexual, da pornografia e da prostituição. A renúncia de D’Emilio é um luxo que nós, que continuamos buscando o fim da violência masculina, não podemos nos dar.

Karla Jay e Allan Young, em sua nova introdução à antologia Out of the Closets, explicam que abandonaram seus sonhos de revolução por serem simplesmente impraticáveis, por não terem apelo popular suficiente.

Tal como nossos homólogos heterossexuais na Nova Esquerda, fomos enfeitiçados pelo slogan “Revolução em nossa vida”, mas estávamos alheios ao fato de que esses objetivos de longo prazo tinham pouco significado para a grande massa da população americana – inclusive a maioria dos gays e das lésbicas americanas –, que estava sobrecarregada com o trabalho, o lar, as crianças e outras responsabilidades. Em relação à insistência em conectar o pessoal com o político, isso pode ter sido bastante recompensador, e servido como terapia barata para muitos, mas sua aplicação extrema tornou a vida um tanto difícil. (Jay e Young, 1992, p. xxxvii).

Eles perguntam: “Então, qual é a ‘real’ libertação gay? É a assimilação de pessoas gays em cada ponto do tecido social da vida americana existente? Ou é o movimento revolucionário total que motivou os escritores de Out of the Closets?” (p. xliv).

Um desenvolvimento que provavelmente acelerou o abandono das percepções feministas por muitos ativistas gays foi a numerosa retirada das lésbicas do movimento de libertação gay, a fim de que pudessem concentrar suas energias no feminismo lésbico. Lésbicas sempre estiveram em minoria dentro do movimento de libertação gay, sendo uma considerável minoria dentro do Reino Unido. Sua retirada nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália se deu pela crescente força do feminismo, o que levou as lésbicas a se concentrarem em seus interesses enquanto mulheres e a serem sensíveis ao sexismo de seus colegas homens. Um assunto que foi fonte de uma séria cisão entre homens e mulheres na libertação gay foram as práticas sexuais. Denise Thompson descreve o desencantamento das lésbicas na Austrália deste modo: “O modelo de ‘liberdade sexual’ promovido pela libertação gay continuou intransigentemente masculino – o foder pelo foder, a estimulação erótica restrita aos genitais e a poucas e seletas zonas erógenas, o sexo anônimo em beats (espaços públicos de encontro), bares, clubes e saunas” (Thompson, 1985, p. 70). Gregg Blatchford, da Sydney Gay Liberation, reflete sobre a misoginia casual dentro do que ele chama de “subcultura homossexual” da seguinte forma:

As mulheres são frequentemente referenciadas por seus órgãos sexuais; “bacalhau” é um termo comum para mulheres, e “boceta” é usado como um adjetivo para referir-se a algo que possui as características de uma mulher. O termo depreciativo “Maria Purpurina” é usado para descrever mulheres que apreciam a companhia de homens gays. Além dessas expressões características de homens gays, a maioria das referências às mulheres são similares às formas como os homens heterossexuais costumam responder às mulheres: “vaca”, “velha”, “prostituta”, “piranha”, “fácil”, “vadia”. (em Thompson, 1985, p. 56).

Os homens dentro da libertação gay precisavam se esforçar para superar esses elementos da cultura gay, e nem sempre obtinham sucesso.

A maioria das lésbicas envolvidas na Libertação Gay no Reino Unido abandonaram em massa o movimento. Como Nettie Pollard, uma das que ficaram, descreve: “Quatro ou cinco de nós ficaram, e o restante, mais ou menos trinta, saiu” (Power, 1995, p. 241). Lisa Power oferece algumas explicações. Para sua história oral da GLF, ela entrevistou homens que estiveram envolvidos com a libertação gay no início dos anos 1970. Um homem, Tim Clark, explicou que homens estavam unidos por toda atividade sexual que acontecia entre eles. “Em geral, elas estavam excluídas do sexo em massa que os homens estavam praticando, o qual servia como uma forma de conexão” (p. 240). Uma entrevistada lésbica apoiou a ideia de que homens e mulheres estavam divididos por causa da determinação dos homens em verem suas práticas sexuais como a própria essência da libertação: “O que causou problemas entre homens e mulheres foi o fato de que vários dos homens queriam falar sobre cottaging11 nos encontros” (Carla Toney, citada em Power 1995, p. 242).

Outro ponto que irritou as lésbicas foi a adoção, por alguns homens na libertação gay, da prática do drag. O entendimento de que papéis sexuais estavam na raiz da opressão das mulheres e dos homens gays era expresso por alguns homens gays de maneiras que ativistas lésbicas consideravam problemáticas. No Reino Unido, por exemplo, alguns homens da libertação gay decidiram usar vestidos no underground, nas ruas e no cotidiano. Nas reuniões, eles decidiram se envolver em práticas tradicionalmente femininas, incluindo tricotagem. As lésbicas presentes dificilmente usariam vestidos, algumas achavam essa imitação de estereótipos ofensiva. Como Power explica: “O drag […] alimentou de forma exponencial a raiva de muitas mulheres da GLF, que viam nessa prática não uma quebra, por parte dos homens, de sua inibição e machismo, mas sim como uma exploração da feminilidade tradicional” (p. 242). Um homem que esteve envolvido na GLF deu à Power uma descrição gráfica de como se dava essa ridicularização. Em um encontro da GLF, um drag queen “usava um vestido branco com duas fendas laterais e estava sem cueca, deixando tudo à mostra. […] As mulheres usavam calças” (Harry Beck citado em Power, 1995, p. 242). Mary McIntosh, uma socióloga lésbica que também estava envolvida na GLF, explicou: “Eu lembro de um baile em que alguns homens estavam praticando um drag extremo que me pareceu bastante zombeteiro. Nada disso havia sido ponderado” (Mary McIntosh citado em Power 1995, p. 243). As mulheres da GLF estavam sendo pressionadas a aceitar travestis não operados como se fossem mulheres e a permitir que eles participassem dos grupos de mulheres. Isso fez com que grupos de mulheres fossem “como grupos mistos”, porque “podia haver dez transexuais e aproximadamente doze mulheres”, e “algumas das mulheres sentiam que essas pessoas tinham atitudes bem masculinas, eram bastante paternalistas com as mulheres e tentavam roubar a opressão das mulheres sem abrir mão do poder da pica” (Power, 1995, p. 244).

Mas os homens gays que gostavam de praticar o drag consideravam que a masculinidade era o papel sexual que deveria ser desafiado e que, por usarem roupas tradicionalmente femininas, eles estavam ajudando a destruir a masculinidade. Eles estavam fazendo aquilo que agora pode ser chamado de “performance de gênero” (Butler, 1990 [2003]) de uma maneira bastante direta e politicamente motivada. O que não estava presente na libertação gay era qualquer “performance” de masculinidade por homens e mulheres ser concebida como uma coisa boa. A masculinidade era, em geral, considerada problemática. Isso mudou no fim dos anos 1970 e no começo dos anos 1980, quando a masculinidade gay, na forma do sadomasoquismo e de outras manifestações, como o grupo Village People, viraram moda mais uma vez.

A lésbica estadunidense Del Martin, ao se despedir do movimento de libertação gay para se unir ao movimento de libertação das mulheres, descreveu a si mesma como “grávida de raiva” quando amargamente denunciou uma “fraternidade” cuja preocupação com bares, acampamentos, pornografia, drag e reproduções de papéis sexuais havia transformado homossexuais em “motivo de chacota” para o público (citado em Heller, 1997, p. 7). Dois fortes apoiadores homens da GLF no Reino Unido redigiram um panfleto em apoio à evasão das mulheres, dirigindo-se à libertação gay masculina. Eles acusaram a libertação gay de ter se degenerado a um simples ativismo gay, no qual “homens gays buscam seu total acesso ao privilégio masculino” lutando por igualdade com os homens heterossexuais enquanto a supremacia masculina permanece intacta. Eles parecem ter um ótimo entendimento das preocupações das mulheres.

Aos olhos deles, um homem gay é apenas um homem que gosta de fazer sexo com homens, o que se passava em suas cabeças era muito visível ao olhar para sua literatura, cheia de pênis bojudos, motocicletas e músculos, os símbolos exatos da supremacia masculina e da opressão das mulheres, dando suporte ao sistema de papéis de gênero que é a base da sua própria opressão. (David Fernbach e Aubrey Walters, citado em Power, 1995, p. 24). 

Considerando o culto à masculinidade que foi semeado na cultura gay através dos clubes de couro e do sadomasoquismo durante os trinta anos seguintes, o argumento deles parece presciente.


[11] N.E.: Termo em inglês sem tradução correlata para o português que se refere ao sexo praticado entre homens desconhecidos em banheiros públicos. O termo faz menção ao formato dos banheiros públicos nos parques da Inglaterra, que têm o telhado em formato triangular como os das casas cottage.

Imagem capa: Richard Wandel. Rally crowd #1. Image ID: 1606014 | The New York City Public Library — Digital Collections

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