No sexto capítulo de A Indústria dos Sexos Sintéticos, Jennifer Bilek mapeia o crescimento do mercado de cirurgias de modificação sexual e a lógica que o sustenta: corpos esterilizados criam demanda por reprodução assistida, e o complexo tecnomédico lucra nos dois lados.
Termos como “explosão transgênero” e “cuidado afirmativo de gênero” são eufemismos com conotações tanto políticas quanto comerciais. Eles são utilizados para vender simultaneamente os produtos dos sexos sintéticos e a ideologia que os sustenta, enquanto ocultam o lado comercial da questão. Para muitas pessoas que apoiam essa indústria, a promoção de uma ofensiva médica ao sexo humano saudável é raramente notada, pois os sexos sintéticos foram vendidos para a sociedade como um movimento de direitos humanos, parte da comunidade LGBT. Ao menos dois terços dessas pessoas, assim como as que estão sendo esterilizadas por meio das cirurgias e medicamentos para criação de sexos sintéticos, não conseguirão ter seus próprios filhos sem reprodução assistida.
Em 2020, a campanha de propaganda e marketing para os sexos sintéticos estava em pleno funcionamento há apenas seis anos. O mercado global de cirurgias sexuais sintéticas ainda era incipiente, estimado em apenas 319 milhões de dólares pela Global Market Insights, plataforma de pesquisa de mercado apoiada pelo Better Business Bureau. A projeção de crescimento dessas cirurgias para o complexo médico-industrial era de 1,5 bilhão de dólares até 2026. Esses números foram fornecidos pelo Market Watch, site de informações financeiras, notícias e análises de negócios. Ele é de propriedade da Dow Jones and Company.
Segundo as estatísticas da Global Market Insights, o mercado quase dobrou, indo de 319 milhões de dólares em 2020 para 623 milhões em 2022. Eles projetam lucros de 1,9 bilhão de dólares para o complexo médico-industrial até 2032, o que parece pouco frente ao alcançado em dois anos1.
Em 2023, o Market Watch forneceu uma projeção de lucro de 5 bilhões de dólares até 20302. Uma terceira projeção de lucro, realizada pela Futurewise Research, outra plataforma de pesquisa de mercado que opera no Reino Unido, divulgou fluxos de receita de 30 bilhões de dólares projetados para o complexo médico-industrial até 20283, por essas mesmas cirurgias. Como explicar essa enorme variação nas estatísticas e/ou o aumento colossal do crescimento projetado — de 1,5 bilhão em 2026 para 5 bilhões e/ou 30 bilhões em 2028-2030?
O que é claramente afirmado em ambos os relatórios é que o crescimento do mercado de cirurgias sexuais sintéticas está em alta e isso é atribuído a políticas de governo favoráveis. Entre outros fatores relevantes estão o acesso e a disponibilidade de centros de cirurgia de sexos sintéticos e a conscientização mundial sobre essas cirurgias. As “clínicas de gênero” para jovens não existiam nos Estados Unidos até 2007 e, desde então, vêm crescendo exponencialmente.
O que está sendo chamado de “disforia de gênero”, uma dismorfia corporal sobre a realidade sexuada de alguém, não é um problema médico generalizado. É um problema de propaganda generalizado. Ao longo da última década, quem vive nos Estados Unidos, a terra da Big Pharma, já deve ter sido exposto a uma verdadeira blitzkrieg publicitária quase ininterrupta — 24 horas por dia, 365 dias por ano — em favor dessas cirurgias.
Em 2014, um ator negro, Roderick Laverne Cox — um homem com forte inclinação a usar roupas socialmente lidas como de mulheres e simulacros sintéticos de nossa biologia — foi colocado na capa da revista TIME anunciando o “ponto de inflexão transgênero”. Desde então, essa campanha publicitária persuasiva em favor de um setor marginalizado da sociedade com um transtorno de imagem pessoal — que precisa da nossa atenção e empatia — vem sendo incessantemente disseminada para nós. Muitas pessoas já foram engolidas pelo negacionismo da realidade do sexo e outras estão cedendo para se encaixar.
Em 2015, a Vanity Fair exibiu em sua capa um dos grandes ícones da masculinidade e da virilidade norte-americanas, Bruce Jenner. Vencedor da medalha de ouro nas Olimpíadas de Montreal contra os atletas soviéticos em 1976 na divisão de decatlo, ele posou vestindo um corset feminino e afirmou que sempre foi uma mulher. Foi aclamado como novo herói estadunidense, mesmo depois de fazer piada sobre ter sido flagrado pelas câmeras bisbilhotando a gaveta de roupas íntimas da sua filha.
Em 2016, a TIME deu sequência à capa que exibia Laverne Cox com uma matéria sobre uma mulher grávida, referindo-se a ela como um homem. Em 2021, a atriz Ellen Page também foi capa da TIME como “Eliot”. Todos os grandes meios de comunicação tradicionais fizeram uma matéria sobre a revelação de “Eliot”, sendo a primeira matéria de capa da revista TIME sobre um “homem trans”. Isso coincidiu com uma capa da New York Magazine e a perturbadora história sobre uma mulher mentalmente instável e “seu pênis”. Na última década, a propaganda dos sexos sintéticos como algo progressista tem sido prolífica, para dizer o mínimo. Basta pesquisar no Google “trans capas de revista” e clicar em “imagens” para que se possa ter um gostinho do caos.
Os números de 2023 sobre os lucros do complexo médico-industrial não registram a receita obtida dos procedimentos de remoção das características sexuais (as chamadas cirurgias nullo) ou de construção de características sexuais sintéticas enquanto se mantém a anatomia sexuada intocada (cirurgias “não binárias”).
Nenhum dos relatórios inclui as vendas de bloqueadores da puberdade. Se tivermos cem crianças recebendo bloqueadores da puberdade por sete anos, o complexo médico-industrial receberá 27 milhões de dólares. Na maior parte das vezes, bloqueadores da puberdade são sinônimo de tratamento com hormônios sexuais do sexo oposto, os quais submetem o corpo a um resultado desejado: um corpo adulto que pode se passar por, ou ser confundido com, o do sexo oposto. Os hormônios do sexo oposto devem ser tomados ao longo de toda a vida se a pessoa quiser continuar negando a realidade do seu corpo sexuado a um custo aproximado de 1.500 dólares por mês. Se apenas cem pessoas tomarem hormônios do sexo oposto durante vinte anos, o complexo médico-industrial obterá lucros que podem chegar a 36 milhões de dólares. De acordo com o UCLA Williams Institute, atualmente são registrados 700 mil crianças e jovens que se identificam como “transgêneros” nos Estados Unidos, o que evidencia um aumento acentuado nos últimos cinco anos.
As receitas estimadas também não levam em conta outros medicamentos, suprimentos e serviços necessários para a realização desses procedimentos. Isso inclui anestesia, antibióticos, imunossupressores, equipamentos cirúrgicos, equipamentos de geração de imagens, treinamento especializado, pesquisa, tratamento psiquiátrico, “especialistas em gênero”, etc. Além disso, muitas pessoas que se submetem a essas cirurgias continuam desejando mais cirurgias para forçar seus corpos a alcançarem um tipo de “passabilidade” equivalente ao sexo oposto. Isso pode incluir várias cirurgias de feminização facial, raspagem da linha da mandíbula, diminuição do pomo de Adão, cirurgia de diminuição da clavícula para minimizar os ombros, cirurgias de minimização da linha da sobrancelha e dos pés e implantes de cabelo e remoção de pelos. Também não contabilizam as complicações físicas decorrentes dos riscos que acompanham qualquer cirurgia, e que se estendem para novas cirurgias não alinhadas com os instintos próprios do corpo, voltadas para eventualmente reparar feridas permanentes causadas por essas cirurgias (ex.: a pele do pênis invertida forma uma cavidade esculpida, que precisa ser dilatada todos os dias para que consiga permanecer aberta). A projeção financeira também não considera os efeitos prejudiciais decorrentes do uso de medicamento a longo prazo e das reações indesejadas, consequências das cirurgias realizadas em corpos saudáveis, à medida que os pacientes envelhecem.
Os cidadãos norte-americanos, e aqueles que seguem nossos passos, são os que arcam, economicamente e socialmente, com os custos dessa campanha de propaganda e marketing. As identidades sexuais sintéticas vendem aos jovens uma falsa promessa de libertação ao tentar sequestrar a natureza por meios médicos — e eles estão comprando esse sonho. Se eles sobreviverem à grande aflição de viver uma mentira sobre quem e o que são, a decepção e o arrependimento que irão sentir quando acordarem do sonho serão custosos para todo mundo.
Esse não é um fenômeno passageiro. O complexo médico-industrial faz propaganda dessas cirurgias e lucra com elas. Uma campanha publicitária jamais vista está sendo ofuscada por uma narrativa de direitos humanos. Nosso aparato de propaganda supera e muito qualquer coisa que Edward Bernays, o pai das relações públicas, poderia ter sonhado; porque a tecnologia é muito mais poderosa e proeminente em nossas vidas hoje do que quando Bernays era vivo.
A manipulação da mente norte-americana tem sido tão ostensiva que estamos cambaleando à beira de uma alucinação coletiva. O casamento propagandístico do complexo médico-industrial com um movimento de justiça social para indivíduos atraídos por pessoas do mesmo sexo foi uma genialidade política. Esse pequeno movimento pelos direitos civis foi sequestrado pela Big Pharma durante a crise da aids e criou um consumidor de nicho. Surgem então boates gays, livrarias, excursões em cruzeiros marítimos, advogados, cidades e estabelecimentos gay friendly e organizações não governamentais para proporcionar um senso de comunidade a uma pequena parcela da população. Isso rapidamente se transformou em uma força avassaladora de poder político baseada em marketing cruzado. Se a sua corporação apoiasse o LGB, então o LGB seria consumidor da sua corporação.
Os LGB já não se encontravam mais à margem da sociedade. Mesmo assim, com a dissipação da aids como um problema de saúde pública nos Estados Unidos e a enorme perda de receita do complexo médico-industrial devido à redução nas vendas de medicamentos para essa comunidade, algo precisava ser feito. Entram em cena os homens com fetiche por serem mulheres (transexuais). Mudar o seu “gênero” (leia-se: características sexuais) abriria mercados de identidades sexuais de uma forma que não seria possível pela realidade visível dos dois sexos humanos. A comunidade LGB constituía um fluxo de marketing sem saída, até acrescentarem o “T+”.
Cirurgias e intervenções médicas para manifestar as identidades sexuais sintéticas também abriram mercados para além do complexo médico-industrial. Agora existem linhas de produtos de maquiagem “não binários”, packers [itens para simulação de bulge masculino] para crianças, agências de modelos especiais, acampamentos de verão, treinamento sobre como performar o sexo oposto, fotografias e arte dos “seres especiais”, livros sobre esses seres especiais e especialistas jurídicos para garantir seus direitos. Hoje existe toda uma indústria, conjurada do pó de unicórnio, abrindo mercados em identidades sexuais sintéticas e medicalizadas.
O verniz de direitos humanos LGB para um complexo médico-industrial predatório assume um tom ainda mais sombrio quando entendemos que lésbicas e gays, junto com as crianças que estão sendo esterilizadas sob essa bandeira dos direitos humanos, serão todos futuros consumidores de tecnologias reprodutivas — manifestando-se como a “família moderna”, criada a partir do uso dos corpos das mulheres como fábricas tecnológicas de reprodução. Esse cenário ajuda a explicar o apagamento linguístico e legal das mulheres nas sociedades ocidentais. A primeira etapa da exploração industrial é desumanizar a população que se pretende explorar.
É significativo que Marc Benioff, cocriador da Salesforce Cloud Computing Corporation, também seja proprietário da revista TIME, que apresentou o “ponto de inflexão transgênero” aos Estados Unidos. A clínica de gênero da UCLA, na Califórnia, foi batizada com seu nome e faz grandes investimentos no mercado de fertilidade. E é claro que ele não está sozinho. Jeff Bezos é outro bilionário que está investindo pesado no mercado de fertilidade. Sua família doou 166 milhões de dólares para um hospital do Brooklyn, em Nova Iorque, que oferece “cuidados de gênero” extensivamente. Já escrevi bastante sobre a família Pritzker e suas maquinações filantrópicas para impulsionar a “ideologia da identidade de gênero”. Em 2021, o governador Pritzker assinou um pacote legislativo que atualiza as leis estaduais de cobertura de tratamento para infertilidade por planos de saúde, que passa a cobrir despesas de pessoas com identidades sexuais sintéticas4.
Atualmente, o mercado da infertilidade é um grande negócio, e o complexo médico-industrial está esterilizando uma geração de jovens em nome de suas “identidades de gênero” (identidades sexuais sintéticas), desprovido de critérios médicos ou de quaisquer ferramentas de diagnóstico confiáveis. As identidades existem apenas na imaginação dos jovens cooptados por um aparato publicitário do próprio complexo médico-industrial, que lucra com isso ao longo da vida dessas pessoas, do início ao fim.
[1] N.E.: GLOBAL MARKET INSIGHTS. Sex Reassignment Surgery Market size to exceed $1.95Bn by 2032. GMInsights Press Release, 2023. Disponível em: https://www.gminsights.com/pressrelease/sex-reassignment-surgery-market/. Acesso em: 17 fev. 2026
[2] N.E.: Projeção do mercado norte-americano. Fonte primária: GRAND VIEW RESEARCH. U.S. Sex Reassignment Surgery Market Size, Share & Trends Analysis Report By Gender Transition, by Procedure, and Segment Forecasts, 2023-2030. Grand View Research Inc., set. 2023. Disponível em: https://www.grandviewresearch.com/industry-analysis/us-sex-reassignment-surgery-market/. Acesso em: 17 fev. 2026.
[3] N.E.: A projeção de 30 bilhões de dólares da Futurewise, publicada em 2023 com CAGR de 29%, foi posteriormente revisada pela própria empresa. O relatório atual (2025) da Futurewise projeta 2,01 bilhões de dólares até 2033 (CAGR 11,52%), alinhando-se com outras fontes da indústria. Outras projeções para o mesmo período: Global Market Insights ($1,95 bilhões de dólares/2032), Grand View Research (5 bilhões de dólares/2030 apenas EUA), The Insight
Partners (6,26 bilhões de dólares/2030 global).
[4] N.E.: HB 3709, assinada em lei pelo Governador J.B. Pritzker em 27 de julho de 2021, expandiu a definição de infertilidade no Illinois para incluir “a incapacidade de uma pessoa de se reproduzir, seja como indivíduo único ou com parceiro, sem intervenção médica”, garantindo cobertura de seguro para fertilização in vitro, inseminação alternativa e transferência de embriões para casais do mesmo sexo, homens solteiros e pessoas que não podem engravidar naturalmente por razões médicas. A lei entrou em vigor em 1º de janeiro de 2022.
Imagem capa: DrKontogianniIVF