Autora desmonta a narrativa de que banheiros separados por sexo são “discriminatórios”, revelando como a campanha por espaços “de gênero neutro” ou separados por “identidade de gênero” apaga décadas de luta feminista, transformando o que antes era considerado assédio em “direito”.
Em um artigo intitulado “A política do banheiro: uma resposta feminista à campanha para ‘desgenerificar’ um espaço das mulheres”, publicado originalmente em 2014 no Women’s Studies International Forum, a feminista lésbica Sheila Jeffreys oferece uma análise crítica acerca de um dos debates tornados mais polêmicos da atualidade. Jeffreys, que foi professora emérita da Universidade de Melbourne e escreveu obras importantes como “A origem da política queer” (2025), “Beauty and Misogyny” (2015) e “Gender Hurts” (2014), apresenta uma perspectiva feminista sobre a crescente campanha para eliminar a separação por sexo em banheiros públicos.
A autora detalha como a luta por banheiros “gênero neutro” não surgiu de demandas femininas, mas sim das exigências de homens que se identificam como transgêneros para acessar espaços femininos. A autora se refere, principalmente, a indivíduos de corpo masculino que não alteraram sua anatomia. A questão central são homens que, baseados exclusivamente em uma “identidade de gênero” autoatribuída, reivindicam o direito de entrar em espaços criados especificamente para proteger mulheres e meninas. Como aponta a autora, isso contrasta fundamentalmente com décadas de legislação que reconheceram a necessidade de espaços exclusivamente femininos como proteção para um grupo que historicamente foi impedido de entrar no espaço público em pé de igualdade com os homens, inclusive por falta de acesso a banheiros exclusivos.
Jeffreys reserva uma parte significativa de seu artigo à história dos banheiros femininos, apresentando uma narrativa que contrasta fortemente com a promovida pelo ativismo queer. Ao contrário da alegação de que banheiros segregados foram criados por “moralismo vitoriano”, a autora oferece evidências históricas de que os banheiros femininos foram resultado de campanhas organizadas de mulheres. No século XIX, na Inglaterra, a falta de banheiros para mulheres era uma barreira definitiva à sua participação na vida pública – trabalho, estudo, comércio. A Ladies Sanitary Association e a Union of Women’s Liberal and Radical Associations, entre outras, realizaram campanhas contínuas para estabelecer esses locais, enfrentando uma forte oposição masculina. “A campanha por banheiros foi sobre o que agora seria entendido como o direito humano das mulheres à existência e movimento no espaço público”, destaca Jeffreys. A autora faz comparações reveladoras com campanhas atuais na Índia, onde grupos como Right to Pee estão lutando por banheiros segregados por sexo como uma questão central dos direitos humanos das mulheres, reconhecendo que, sem acesso seguro a instalações básicas, meninas deixam a escola e mulheres são excluídas da vida pública.
Em tempos em que qualquer alusão a essa realidade é rotulada como “fobia”, a investigação de Jeffreys sobre a violência masculina em contextos íntimos é especialmente necessária. Ela fornece amplas evidências de que banheiros e vestiários são locais recorrentes de violência sexual contra mulheres e meninas, registrando casos que vão desde voyeurismo tecnológico (a indústria pornográfica de upskirts em banheiros gera milhões de resultados online) até agressões físicas diretas.
Jeffreys traz o caso de Colleen Francis, um homem de 45 anos que, mantendo sua genitália masculina, conseguiu o direito legal de ficar nu no vestiário feminino de uma faculdade nos Estados Unidos, obrigando meninas adolescentes a se trocar atrás de cortinas. Comportamentos que provavelmente teriam sido vistos como exposição indecente ou assédio sexual e passíveis de sanção criminal no passado foram transformados em direitos masculinos por meio da ideologia da “identidade de gênero”.
Entre as contribuições do texto de Jeffreys, está a demonstração da maneira pela qual o termo “gênero” foi ressignificado para apagar completamente a categoria “sexo” e, com ela, a base material da opressão das mulheres: “a forma como ativistas queer e transgêneros utilizam o termo ‘gênero’ apresenta problemas ao ocultar a existência de mulheres que são fêmeas e que têm interesses específicos” […] Quando os documentos oficiais definem banheiros ‘específicos de gênero’ como ‘destinados a pessoas que se identificam com um gênero particular’, eles apagam completamente qualquer referência ao fato de que mulheres são subordinadas com base em seu sexo biológico – não em sua ‘identidade’. Ela utiliza o termo “casta sexual” para destacar como as mulheres constituem uma classe política definida por características biológicas, não por autoidentificação. “Fetos femininos, por exemplo, são abortados em alguns países e comunidades, não porque tenham um gênero, mas por causa de seu sexo, enquanto gênero é uma construção social que só pode ser criada após o nascimento”. Para a autora, essa materialidade não pode ser desfeita por meio de jogos de linguagem pós-modernos.
Jeffreys também discute um ponto frequentemente esquecido no debate: a prática do sexo gay em público em banheiros masculinos. A autora relata como alguns teóricos queer, como Sheila Cavanagh, idealizam essas práticas ao classificá-las como “revolucionárias”, celebrando, nas palavras de Cavanagh, a “sujeira” e o “homoerotismo” dos banheiros públicos masculinos. A valorização do sexo em ambientes públicos – que, ressalte-se, é uma prática fundamentalmente masculina – evidencia o caráter androcêntrico da política queer. Quando ativistas pedem por banheiros “desgenerificados”, uma das principais oposições, de maneira contraditória, vem de homens gays que veriam seus locais habituais de encontro sexual serem retirados. Portanto, a campanha não se trata realmente de “inclusão universal”, mas sim de redistribuir o acesso a espaços de acordo com hierarquias masculinas específicas.
Jeffreys conclui tanto como um aviso quanto como um chamado à ação. A autora defende que, ao se perder esses espaços seguros para mulheres, retrocede-se enormemente na igualdade feminina, justo quando campanhas mundiais destacam esses locais como cruciais para os direitos humanos das mulheres. “A perda de banheiros seguros para mulheres nesta conjuntura no Ocidente, como resultado de campanhas para proteger o direito à ‘identidade de gênero’, seria um passo sério para trás na igualdade das mulheres”, adverte Jeffreys. A ideia de “desgenerificação” dos banheiros, ao invés de ser um avanço, elimina as mulheres como uma categoria política consistente e ignora a realidade concreta da violência perpetrada por homens. “Mulheres são feitas desaparecer pela ideologia de ‘gênero’ adotada por esses militantes, que, inspirados pela teoria queer e ideias pós-estruturalistas sobre gênero, o essencializam de tal forma que é substituído pela diferença biológica de ‘sexo’”. Segundo Jeffreys, a opção não é se render aos atuais discursos sobre “identidade”, mas sim reafirmar a importância política do sexo e proteger os espaços que as mulheres e feministas conquistaram após longas décadas de luta organizada.
O artigo de Sheila Jeffreys nos oferece argumentos importantes e um posicionamento informado sobre essa discussão que impacta diretamente a segurança e os direitos das mulheres. Em tempos em que somos cada vez mais pressionados a aceitar sem questionar as exigências do ativismo transgênero, a análise de Jeffreys nos recorda que o feminismo se baseia, antes de tudo, em priorizar as necessidades das mulheres – e que essa prioridade não é algo que se negocie.
Confira o artigo em inglês aqui. Confira abaixo algumas datas históricas sobre mulheres e banheiros separados por sexo:
Banheiro feminino no século XIX. Crédito foto: autoria desconhecida.